Quarta-feira, 28 de Fevereiro de 2007
Novamente da Caparica para o Gerês
Caro Henrique e demais AMBIOnautas,
O autor dos "baixos" do EXPRESSO vem perfeitamente identificado no jornal.
Eu não fui, de certeza. Mas não me importava nada de ter feito esse belíssimo "flash", como é notório. Sem pretender que o Ministro do Ambiente se transforme num feiticeiro que "prenda o mar", como "outros prendem a chuva"... Talvez reminiscências das minhas memórias de África!
Trata-se de João Garcia, jornalista que assina a coluna do "Altos ... e baixos" (jgarcia@expresso.pt). Tudo às claras. Pelos vistos, também há "altos", embora, na semana passada, só tenha aparecido um.
Quanto à plantação de árvores no Gerês, que tanto parece incomodar o Henrique (pessoa que eu muito prezo, embora nos tenhamos cruzado pessoalmente, talvez, apenas uma vez, e cujas opiniões, aqui, na AMBIO, nunca me levantaram qualquer objecção), não fui eu que andei a prometê-la.
Basta lembrarmo-nos da comunicação social das épocas dos incêndios para (re)ver o rodopio de quanto é Ministro, de quanto é Governo, de quanto é Autarca, de quanto é funcionário, do Ministério do Ambiente incluído, a prometer mais inquéritos, mais prevenção, mais mundos e fundos para a
reflorestação. É tudo um "é já a seguir"... E, depois, quando, como aqui já alguém disse, "os incêndios dormem" as promessas também adormecem.
Inclusive as promessas de reflorestação feitas pelo Ministério do Ambiente e/ou da Agricultura.
Mas vamos ao que mais (me) interessa e que me toca directamente.
Diz o Henrique:
"Caro
Manuel Antunes, devo ter sido o primeiro técnico (juntamente com outros, se bem me lembro) a dar parecer sobre o projecto de florestação que é referido no comunicado, lá pelos idos de 1989 e se tenho consciência de ter feito muitas asneiras pela vida fora seguramente que o parecer negativo
que dei não foi uma delas. Se a encosta de Vilarinho é hoje uma das áreas com melhor recuperação do Parque Nacional é exactamente pela diminuição da pressão humana que se seguiu à construção da barragem (diga-se de passagem que provavelmente eu teria sido contra a construção dessa barragem, mas não é isso que discuto). E com o projecto de apropriação disfarçado de projecto de florestação da AFURNA hoje teríamos uma situação muito pior que a que temos hoje, do ponto de vista da conservação".
Primeiro, fico satisfeito por saber que alguém do ICN leu o comunicado
d'AFURNA
(http://afurna.no.sapo.pt/INCENDIO_VILARINHO.pdf).
Pelo menos, o ICN já tinha acusado a sua recepção automática, mais rapidamente do que o gabinete do Ministro do Ambiente. Mas ainda não teve tempo para responder, o que a gente de Vilarinho da Furna até desculpa, porque já está habituada a isso: desde que não nos respondam mal, já ficamos satisfeitos. Apesar do pessoal do ICN e de muitos outros organismos públicos passarem a vida a justificar o seu "ganha pão" à custa de pareceres negativos para as Áreas Protegidas, Parque Nacional do Peneda-Gerês incluído. Pois essas Áreas Protegidas só existem porque as populações daí
naturais e/ou residentes criaram e mantêm as condições para que elas existam. "Não havia necessidade", pois, de os técnicos do ICN (e não só), como diz o nosso povo, "cuspir na mão de quem lhes dá o pão".
Depois, porque, por mais satisfeito que se sinta o Henrique Pereira dos Santos, com o seu "mais que iluminado parecer negativo" sobre o projecto d'AFURNA, felizmente que, como dizia o humilde moleiro prussiano, para o seu
todo poderoso  e prepotente Imperador, "ainda há tribunais em Berlim para julgar as arbitrariedades dos poderosos".
Neste caso, houve tribunal em Braga. E, para que conste, no Tribunal de Círculo de Braga, na Acção Ordinária n.º 89/94, 1.º Juízo, em 13 de Outubro de 1995, ficou deiberado: "O Parque Nacional da Peneda-Gerês elaborará, até Outubro de 1995 e por forma a que dê entrada no Instituto Florestal em tempo útil, o projecto, modelo P.D.F., relativo à florestação dos terrenos situados na encosta da margem direita da Albufeira de Vilarinho da Furna e na área do Parque, apoiando a sua aprovação através do respectivo parecer favorável, assim como acompanhará e fiscalizará a execução daquele mesmo projecto, aceitando como interlocutora a ré AFURNA". E, logo a seguir: "Para compensar a ré AFURNA dos trabalhos de corte e extracção das madeiras do Pinhal da Bouça da Mó, também discutido nesta acção, o Parque Nacional da Peneda-Gerês entregará a soma de seiscentos mil escudos, que o réu
Manuel Antunes na qualidade de presidente da Direcção da mesma Afurna vai receber".
Reconheça, lá, Henrique, que foi obra, esta de ter entrado no processo como réu e sair do Tribunal com a condenação do PNPG a ter que elaborar o projecto, mesmo contra o seu parecer, e a ter ainda direito a uma
indemnização pelos pinheiros que cortei, em representação d'AFURNA, na Bouça da Mó, na Mata da Albergaria!...
Depois de muitas vicissitudes por que passou, entretanto, o referido projecto de reflorestação, só parte dele foi ainda executado. O resto da história poderá ficar para um próximo "post".Mas confesso que não percebo essa do Henrique, quando diz que, "com o projecto de apropriação disfarçado de projecto
de florestação da AFURNA hoje teríamos uma situação muito pior que a que temos hoje, do ponto de vista da conservação".
É que, fique muito claro, aqui não houve nem  há qualquer disfarce. E nunca seria pelo facto de os terrenos de Vilarinho serem florestados com apoio do Estado português e da UE (quando a nossa área de uns 2000 hectares até tem contribuído para trazer dinheiro de Bruxelas para Lisboa), que haveria qualquer apropriação. Essa apropriação, por parte da gente de Vilarinho, vem de tempos imemoriais e foi confirmada na "Guerra do Gerês" (talvez venha a  falar dela aqui), de 1890, e por várias sentenças de Tribunal, a última das quais a já referida sentença do Tribunal de Braga, de 1995. Se quiserem mais alguma sentença comprobatória, é só dizer, porque, por mim, podemos ir já hoje Tribunal, talvez a única instituição portuguesa com que me tenho dado muito bem, mesmo quando entro como réu. Graças, naturalmente, ao traquejo que me deu o facto de ter andado numa dezena de processos,
durante meia dúzia de anos, com um Director do PNPG, cujo nome me dispenso de referir, por já o ter "imortalizado", além do mais, num dos meus livros.
Aproveito a oportunidade para agradecer ao Henrique (como, então, membro da Direcção do ICN) por ter dado uma ajuda para o enviar para bem longe da nossa terra e do nosso Parque.
Como este "post" já vai longo, apenas gostava de convidar, por agora, os colegas da AMBIO para dar uma espreitadela "à encosta de Vilarinho (que) é hoje uma das áreas com melhor recuperação do Parque Nacional", no dizer do
Henrique Pereira dos Santos, vários dias após o incêndio do Verão passado, depois de lá terem andado 2 aviões, 2 helicópteros, o exército português e multidões de bombeiros.  Assim o exigia o espectáculo que, na minha ingenuidade, tive a desfaçatez de procurar evitar, ao requerer, sem qualquer resposta até hoje, à Direcção do PNPG  que fosse roçado o mato e feito fogo controlado, naquela zona, de cerca de 300 hectares, no inverno de 2006.
Reparem só, se não tiverem paciência para a leitura de todo o Comunicado, na página 4, na "beleza" do foto n.º 2, e na exuberância daquela área "com melhor recuperação do Parque Nacional".
Henrique "dixit".
(http://afurna.no.sapo.pt/INCENDIO_VILARINHO.pdf).
Manuel Antunes

----- Original Message -----
From: "henrique pereira dos santos" <as1075017@sapo.pt>
To: "'
Manuel Antunes'" <mantunes@mail.telepac.pt>; "'AMBIO'"
<ambio@uevora.pt>
Cc: "'Ministro do Ambiente'" <gmaotdr@maotdr.gov.pt>
Sent: Monday, February 26, 2007 6:12 AM
Subject: RE: [ambio] Da Caparica para o Gerês

Não sei quem escreveu os baixos do expresso, mas num parágrafo tão pequeno é
obra conseguir meter tanta demagogia.
Vejamos:
"O Jornal EXPRESSO, na sua edição de 24/02/2007, coloca o Ministro do
Ambiente, Nunes Correia, entre os "baixos". Como aí se refere, "a provada
incapacidade em conter o mar na Costa de Caparica"
Será que um jornalista responsável acha normal falar em provada incapacidade
de um Ministro conter o mar? Em primeiro lugar o mar foi contido porque não
houve ruptura, em segundo lugar, como é evidente, não é ao ministro que se
podem pedir responsabilidades sobre os resultados de obras de emergência. Ao
ministro podem pedir-se responsabilidades sobre a política de gestão do
litoral e, neste caso, até acho que se lhe devem pedir responsabilidades
pelo facto de se estar enterrar dinheiro a defender parques de campismo que
de campismo não têm nada, e que há muito deveriam de lá ser tirados. Isto é,
o problema é a contenção a mais e não a menos.
"e a denúncia de que, volvidos seis meses sobre os incêndios no Gerês, ainda
não foi plantada qualquer árvore, não abonam a favor do Ministério do
Ambiente."
Felizmente que não foi plantada qualquer árvore, seria mais dinheiro deitado
à rua. O incêndio teve muito menos consequências do que para aí se diz
(provavelmente o jornalista nunca foi ao Ramiscal na vida) e a haver medidas
de recuperação elas devem ser no sentido do apoio à regeneração natural e
não a ir para lá estragar mais com as florestações que são muitas vezes mais
degradadoras que o próprio fogo.
"No Gerês, a culpa parece ser da falta de verbas do Parque Natural; na
Costa, diz-se que há muito dinheiro deitado ao mar. Sugere-se uma troca de
verbas"."
Agora fico baralhado. Então critica-se a incapacidade de conter o mar e a
solução é investir menos? É tão fácil arranjar uns trocadilhos a fazer pouco
dos outros quando não se tem qualquer responsabilidade de decidir o que quer
que seja.
"Agora compreende-se porque um Comunicado d' AFURNA
(http://afurna.no.sapo.pt/INCENDIO_VILARINHO.pdf), sobre o último incêndio
no monte de Vilarinho, enviado por e-mail para o Gabinete do Ministro do
Ambiente, em 2/09/2006, só foi lido em 19/10/2007"
Caro
Manuel Antunes, devo ter sido o primeiro técnico (juntamente com
outros, se bem me lembro) a dar parecer sobre o projecto de florestação que
é referido no comunicado, lá pelos idos de 1989 e se tenho consciência de
ter feito muitas asneiras pela vida fora seguramente que o parecer negativo
que dei não foi uma delas. Se a encosta de Vilarinho é hoje uma das áreas
com melhor recuperação do Parque Nacional é exactamente pela diminuição da
pressão humana que se seguiu à construção da barragem (diga-se de passagem
que provavelmente eu teria sido contra a construção dessa barragem, mas não
é isso que discuto). E com o projecto de apropriação disfarçado de projecto
de florestação da AFURNA hoje teríamos uma situação muito pior que a que
temos hoje, do ponto de vista da conservação.
henrique pereira dos santos
 


publicado por MA às 18:04
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Mais Portagens no Gerês
Os meus agradecimentos ao Miguel Araújo pelo seu lúcido exercício do
contraditório, tão reclamado noutras instâncias, nesta troca de impressões
sobre as portagens no PNPG.
Mas penso que as portagens em que o Miguel está a pensar são algo de ideal
que, eventualmente, só existirão na sua cabeça e no Urano de Platão.
Não são essas portagens que eu, aqui, tenho analisado e criticado, mas, tão
somente, algo de muito mais comezinho, previsto na portaria n.º 31/2007, de
8 de Janeiro (http://dre.pt/pdf1sdip/2007/01/00500/01140114.PDF),
que continuarei a rejeitar, com base na experiência de 1990-1992. E, como "a
experiência é a madre da vida", no dizer de Duarte Pacheco Pereira (não
confundir com outros Pachecos e outros Pereiras que por aí andam), no seu
"Esmeraldo De Situ Orbis" (1505-1508), apenas consigo ver, nessas portagens,
a tal "máquina registadora" dos cofres do ICN/PNPG, que só contribuirá para
a degradação do ambiente, na minha terra.
E, como, de facto, "num Estado de direito querelas sobre propriedade da
terra são resolvidas nos tribunais", como diz o Miguel, se o Estado
português quiser que a  "Mata da Albergaria" e toda a serra do Gerês sejam sua
propriedade, terá que ser esse mesmo Estado a ir para os tribunais porque,
na verdade, não há nenhum documento legal que atribua ao Estado essa
propriedade, nem sequer lhe chama "Mata Nacional", como acontece, por
exemplo, com a "Mata Nacional do Buçaco", entre outras. Aproveito para
informar que o Estado já o tentou, mas não o conseguiu. Penso que, como
está, está muito bem: tudo o que naquela zona não é de proprietários
privados, como os de Vilarinho da Furna e de outras povoações, é da Câmara
Municipal de Terras de Bouro. Por isso (e não só), essa mesma Câmara tem
assento na Comissão Directiva do PNPG e uma determinante palavra a dizer na
nomeação do respectivo Director.
E, se é certo que, como o Miguel refere, há portagens em estradas que
atravessam propriedades privadas, primeiro, o Estado (ou Autarquias) compra,
paga, indemniza, compensa os respectivos proprietários e só depois é que
passa. Porque é que, no Gerês, há-de ser diferente?
Por isso, como é suficientemente conhecido o final do país dos sovietes, também
eu tenho um pressentimento como vão acabar as portagens no Parque Nacional
da Peneda-Gerês.
Voltaremos ao assunto, no próximo mês de Junho, altura da prevista entrada
em vigor da mencionada Portaria. Mas será que essa Portaria vai mesmo entrar
em vigor?
A ver vamos...
Até lá, sobre esta matéria, por aqui me fico, com os melhores cumprimentos.
Manuel Antunes

----- Original Message -----
From: <mba@uevora.pt>
To: <ambio@uevora.pt>
Sent: Sunday, February 25, 2007 11:31 AM
Subject: [ambio] Portagens Mata de Albergaria

Esta mensagem segue sem acentos.

Manuel Antunes:
> Espero que a minha posição sobre as portagens na Mata da Albergaria tenha
> ficado suficientemente clara no meu "post" anterior: Portagens na Mata da
> Albergaria sim; portagens pagas não.
> Isto devido à experiência já feita nos anos de 1990-1992, de triste
> memória.
Agradeco o esclarecimento do Manuel Antunes e comprovo que, de facto, nao
estamos de acordo como intui na primeira mensagem que foi enviada para a
lista.
O que eu defendo, sem qualquer tipo de ambiguidades, sao portagens pagas
sempre e quando tal seja possivel. Desconheco as desventuras dos anos 90
mas nao creio que o passado deva justificar a inibicao de medidas que, por
principio, sao justas:
As areas protegidas fornecem servicos a' sociedade que sao usados de forma
desigual pelos cidadaos pelo que os que as usam directamente devem
contribuir de forma desigual para a sua conservacao.
O pagamento nao so' e' justo como fomenta atitudes de exigencia que sao
saudaveis. Quem paga por um servico tende a exigir qualidade. Quem nao
paga, nao exige qualidade. Mais grave, tende a desvalorizar os valores em
questao.
Portanto e independentemente da discussao sobre o uso e posse das verbas
arrecadadas e' desejavel que se comecem a cobrar portagens nas areas
protegidas sempre e quando  seja possivel.
> E diz-nos que "a grande novidade desta portaria, é que prevê que a
> receita reverta a favor das acções de conservação da Mata de Albergaria".
> Já assim era em 1990, e não foi cumprido pelo ICN/PNPG.
> Como diz o nosso povo: "na primeira qualquer um cai, na segunda só cai
> quem quer"...
O povo por vezes acerta e por vezes nao acerta. Nao tenho duvidas de que o
nosso Estado seja ineficiente e muitas vezes incompetente. Mas existe um
passo de gigante entre constatar este facto (dificilmente contestavel) e
presumir que existe ma' intencao de quem propoe medidas como a que foi
agora introduzida. So' a ma' intencao justificaria o ditado acima
reproduzido.
> Depois, lembra-nos: "ainda que o território aonde será cobrada a taxa é,
> quase na totalidade, mata nacional, da propriedade do estado".
> Recordo que a Câmara Municipal de Terras de Bouro sempre contestou a
> propriedade do Estado sobre o perímetro florestal do Gerês (Mata da
> Albergaria incluída), desde 1888 a esta parte.
Num Estado de direito querelas sobre propriedade da terra sao resolvidas
nos tribunais. Compreende-se dificilmente que a Camara reclame a
propriedade de um pedaco de terra desde 1888 e volvido mais de um seculo
ainda nao tenha conseguido fazer vingar a sua tese onde ela tem de ser
defendida, i.e., nos tribunais. Se nao conseguiu, lamento, caro Manuel
Antunes, mas esta posicao nao pode ser usada como argumento para inibir a
gestao legitima dos valores de conservacao parte de quem tem incumbencia
legal para o fazer.
> Considero que é boa a intenção de Henrique Pereira esperar "que esta
> medida contribua para que cada vez mais tenhamos os visitantes a preferir
> fazer a Geira (via romana) e a estrada de Leonte a pé e de bicicleta,
> deixando os carros à entrada da Mata".
Esta medida tem um alcance muito mais profundo do que a simples e
desejavel reducao do trafego automovel e vai muito alem das peculiaridades
do Parque Nacional da Peneda Geres. Estabelece-se o principio de que os
servicos fornecidos pelas areas protegidas devem ser remunerados. Pode-se
discutir como deve ser gerida a verba obtida pela cobranca desses servicos
mas essa discussao nao deveria ofuscar a questao central que e' a justeza
da cobranca do servico.
> Mas duvido que, agora, tal aconteça. Primeiro, porque, desde que me
> conheço, dos idos de 1950 a esta parte, os únicos agentes dos Serviços
> Florestais/PNPG, que por lá vi andar a pé ou de bicicleta, foram os
> antigos Guardas Florestais.
Esse argumento pode ser usado para justificar o aumento do valor da
portagem, nao para abulir a portagem.
> Depois, porque, nos termos da referida Portaria, o facto de se
> pagar 1,50 Euros permitirá a qualquer pessoa andar, com a sua viatura
> motorizada, pela Mata da Albergaria todo o tempo que quiser,  "por dia de
> circulação". Tal como aconteceu em 1990-1992, uma vez que a portagem se
> transformará (assim como já se verificou) numa "caixa registadora" dos
> cofres do ICN/PNPG, sem a imposição de  qualquer limitação de tráfego. Por
> isso, até prova em contrário, penso que o modelo que tem sido aplicado, de
> 1992 a esta parte, de, aos feriados e fins-de-semana, durante os meses de
> Verão, as viaturas motorizadas dos não naturais/residentes só estarem
> autorizadas a atravessar a Mata da Albergaria, a caminho da Galiza, pela
> Portela do Homem, ou em sentido contrário, com um tempo limitado para
> fazer o respectivo percurso, sem qualquer pagamento, é o mais adequado.
Toda a argumentacao do Manuel Antunes e' valida mas nao implica
inexistencia de portagem. Podem criar-se limitacoes de trafego, de horas
de visita, etc, mantendo o principio da portagem. Pode-se tambem aumentar
o valor da portagem (poderia-se incluir portagem variavel consoante a
cilindrada do automovel + numero de pessoas maiores de idade) por forma a
aumentar o seu efeito dissuasor.
> E, como ainda não estamos (alguma vez estaremos?) no país dos sovietes,
> considero que a (mal)dita Portaria é, no mínimo, ilegal e
> inconstitucional.
Penso que o Manuel Antunes faz aqui uma confusao, que e' frequente, entre
propriedade da terra e propriedade dos recursos naturais nela constantes.
Por outro lado nao ha' nada de insconstitucional em estabelecer portagens
em estradas. Estas, mesmo quando atravessam propriedades privadas, nao sao
propriedade dos privados mas sim, consoante o caso, do Estado ou das
autarquias.
Cumprimentos,
Miguel Araújo


publicado por MA às 05:42
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Domingo, 25 de Fevereiro de 2007
Da Caparica para o Gerês

O Jornal EXPRESSO, na sua edição de 24/02/2007, coloca o Ministro do Ambiente, Nunes Correia, entre os "baixos". Como aí se refere, "a provada incapacidade em conter o mar na Costa de Caparica e a denúncia de que, volvidos seis meses sobre os incêndios no Gerês, ainda não foi plantada qualquer árvore, não abonam a favor do Ministério do Ambiente. No Gerês, a culpa parece ser da falta de verbas do Parque Natural; na Costa, diz-se que há muito dinheiro deitado ao mar. Sugere-se uma troca de verbas". 

Bem observado!

Agora compreende-se porque um Comunicado d' AFURNA, sobre o último incêndio no monte de Vilarinho, enviado por e-mail para o Gabinete do Ministro do Ambiente, em 2/09/2006, só foi lido em 19/10/2006:

"Your message
  To:      Gab Min Amb Ord Territ Desenv Regional
  Subject: Fogos no Parque Nacional da Peneda-Gerês
  Sent:    Sat, 2 Sep 2006 23:50:34 +0100
  was read on Thu, 19 Oct 2006 15:06:09 +0100
"

sem que merecesse, até agora, qualquer resposta.

Parece que o "Simplex" (e não só) anda arredado do referido Ministério!...

 

 

 



publicado por MA às 03:13
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Sexta-feira, 23 de Fevereiro de 2007
De volta às Portagens no PNPG
Espero que a minha posição sobre as portagens na Mata da Albergaria tenha
ficado suficientemente clara no meu "post" anterior: Portagens na Mata da Albergaria sim; portagens pagas não.
Isto devido à experiência já feita nos anos de 1990-1992, de triste memória.
Agora, o Henrique Pereira, (na sua qualidade de actual Director do PNPG, como se apresenta na AMBIO, que, há meses, tive a honra de conhecer pessoalmente e que muito prezo) vem-nos dar conta da nova Portaria sobre a reintrodução do pagamento das referidas portagens.
http://dre.pt/pdf1sdip/2007/01/00500/01140114.PDF
E diz-nos que "a grande novidade desta portaria, é que prevê que a
receita reverta a favor das acções de conservação da Mata de Albergaria".
Já assim era em 1990, e não foi cumprido pelo ICN/PNPG.
Como diz o nosso povo: "na primeira qualquer um cai, na segunda só cai quem quer"...
Depois, lembra-nos: "ainda que o território aonde será cobrada a taxa é, quase na totalidade, mata nacional, da propriedade do estado".
Recordo que a Câmara Municipal de Terras de Bouro sempre contestou a propriedade do Estado sobre o perímetro florestal do Gerês (Mata da Albergaria incluída), desde 1888 a esta parte. Ainda hoje, nessa área, todos os terrenos que não estão registados em nome de proprietários privados, estão-no em nome da referida Câmara, na Matriz Predial Rústica das Finanças de Terras de Bouro. Sobre essa matéria, pode ser consultado o meu livro Vilarinho da Furna - Memórias do passado e do futuro
.
Por outro lado, nos textos legais, a "Mata do Gerês" nunca aparece designada por "mata nacional", como Henrique Pereira pretende fazer crer.
Considero que é boa a intenção de Henrique Pereira esperar "que esta medida contribua para que cada vez mais tenhamos os visitantes a preferir  fazer a Geira (via romana) e a estrada de Leonte a pé e de bicicleta, deixando os carros à entrada da Mata".
Eu já fiz isso, muitas vezes, no meu tempo de menino e moço. Foi aí que eu aprendi a andar de bicicleta e de motorizada (perdoem-me a indiscrição).
Mas duvido que, agora, tal aconteça. Primeiro, porque, desde que me conheço, dos idos de 1950 a esta parte, os únicos agentes dos Serviços Florestais/PNPG, que por lá vi andar a pé ou de bicicleta, foram os antigos Guardas Florestais. O Mestre Abreu andava de moto e os Srs. Administradores/Directores e demais funcionários andavam/andam de carro/jeep. Depois, porque, nos termos da referida Portaria, o facto de se pagar 1,50 Euros permitirá a qualquer pessoa andar, com a sua viatura motorizada, pela Mata da Albergaria todo o tempo que quiser, "por dia de circulação". Tal como aconteceu em 1990-1992, uma vez que a portagem se transformará (assim como já se verificou) numa "caixa registadora" dos cofres do ICN/PNPG, sem a imposição de  qualquer limitação de tráfego. Por isso, até prova em contrário, penso que o modelo que tem sido aplicado, de 1992 a esta parte, de, aos feriados e fins-de-semana, durante os meses de Verão, as viaturas motorizadas dos não naturais/residentes só estarem autorizadas a atravessar a Mata da Albergaria, a caminho da Galiza, pela Portela do Homem, ou em sentido contrário, com um tempo limitado para fazer o respectivo percurso, sem qualquer pagamento, é o mais adequado. Tal como está redigida a Portaria em questão, onde nem sequer se prevê a hipótese de se poder atravessar a fronteira da Portela do Homem, de Portugal para Espanha (a Portaria nada diz sobre a entrada de Espanha para Portugal, o que constitui uma discriminação injustificável),  sem pagar uma portagem, estou em crer que vai provocar sérios levantamentos das populações portuguesa e espanhola, com toda a razão, por tal não ter qualquer suporte no ordenamento jurídico português e/ou da União Europeia.
Além disso, diz-nos  Henrique Pereira que "gostaria de frisar que esta  medida teve a concordância dos autarcas locais já em 2004".
Não sei como se comportaram esses autarcas, no referido ano. E duvido que Henrique Pereira o saiba, dado que só tomou posse como Director do PNPG em 2006. O que sei é que, nos termos da Portaria em análise, "foram ouvidos o PNPG e as entidades locais - Câmara Municipal de Terras de Bouro e Juntas de Freguesia de Campo do Gerês, Vilar da Veiga , Covide e Rio Caldo -, o Ayuntamento de Lobios e o Parque Natural da Baixa Limia-Serra do Xurés".
O meu primeiro comentário é que, pelo facto de terem sido ouvidos esses autarcas, não significa que tenham dado a sua concordância.  Por outro lado, não sei a que propósito aparecem aqui as Juntas de Freguesia de Covide e de Rio Caldo, uma vez que não têm qualquer jurisdição sobre a Mata da Albergaria.
E, pelos contactos que fiz por estes dias, há Presidentes das Juntas referidas que estão em total desacordo com a Portaria em questão.
Mas, mais importante do que isso, é que foram esquecidos, na elaboração da mencionada Portaria, os representantes do que, no dizer de Henrique Pereira, completaria a "quase totalidade" da (no seu entender)  "mata nacional, da propriedade do estado".  E quanto a esses que faltam para a tal "totalidade", só de Vilarinho da Furna, são mais de uma centena de proprietários, legalmente representados pela AFURNA
, a que tenho a honra de presidir. A que haverá que acrescentar os proprietários do Campo do Gerês e, eventualmente, do Vilar a Veiga.
Aproveito para recordar que uma das portagens (a da Bouça da Mó) está em pleno terreno de Vilarinho da Furna e a outra (a da Portela do Homem) encontra-se numa zona de que a gente de Vilarinho é usufrutuária.
E, como ainda não estamos (alguma vez estaremos?) no país dos sovietes, considero que a (mal)dita Portaria é, no mínimo, ilegal e inconstitucional.
Do que o povo de Vilarinho da Furna, e não só, obrigará as entidades (ir)responáveis por esta Portaria a arcar, naturalmente, com as respectivas consequências.
Manuel Antunes

----- Original Message -----
From: "Henrique Miguel Pereira" hpereira@ist.utl.pt
To: ambio@uevora.pt; mba@uevora.ptmantunes@mail.telepac.pt
Sent: Wednesday, February 21, 2007 2:17 AM
Subject: Portaria da Mata de Albergaria

Caros colegas,
Parece-me que tanto o Manuel Antunes como o Miguel Araújo concordam com
a introdução da taxa de acesso para veiculos motorizados à Mata de
Albergaria, tendo ambos levantado a questão de qual é que será o destino
das receitas. Pois a grande novidade desta portaria, é que prevê que a
receita reverta a favor das acções de conservação da Mata de Albergaria.
Lembro ainda que o território aonde será cobrada a taxa é, quase na
totalidade, mata nacional, da propriedade do estado. Espero que esta
medida contribua para que cada vez mais tenhamos os visitantes a
preferir fazer a Geira (via romana) e a estrada de Leonte a pé e de
bicicleta, deixando os carros à entrada da Mata. Por fim, gostaria de
frisar que esta medida teve a concordância dos autarcas locais já em
2004. Aconselho a consulta da portaria em:
http://dre.pt/pdf1sdip/2007/01/00500/01140114.PDF

Cumprimentos,
 --
Henrique Miguel Pereira (Doutorado em Biologia)
Director                                
Parque Nacional da Peneda-Gerês        http://www.icn.pt
Instituto da Conservação da Natureza    pereirahm@icn.pt
Av. Antonio Macedo           Tel: +351 253 203 480       
4704-538 Braga, Portugal    Fax: +351 253 613 169          
 


publicado por MA às 04:00
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Terça-feira, 20 de Fevereiro de 2007
Ainda as Portagens no PNPG

Sobre as portagens no PNPG, o Miguel Araújo diz que desde há anos defende "a
existência de portagens nas áreas protegidas sempre e quando tal seja
possível". Penso que, nisso, não lhe devo ter ficado atrás, pois, já em
6/7/1990 subscrevi um comunicado, como Presidente d'AFURNA
(http://afurna.no.sapo.pt/Portagens%20no%20PNPG.pdf ), em que, entre outras
coisas, se propunha:    "Que seja feito um controlo nas entradas,
permanências e saídas do Parque, a todos os visitantes, a exemplo do que
acontece em qualquer outro Parque minimamente organizado. Isto implica, no
mínimo, que cada visitante deve pagar uma portagem e todos os serviços que o
Parque e/ou as populações locais ponham à sua disposição. O que deve
reverter a favor da criação e manutenção das estruturas, bem como para
compensação das populações".
E as referidas portagens vieram a ser implementadas ainda nesse ano, ficando
o PNPG com a obrigação de prestar contas dos resultados às autarquias e
donos/usufrutuários dos terrenos envolvidos. Só que o PNPG não cumpriu com
esse compromisso, limitando-se a transformar as portagens numa "caixa
registadora", para encher os seus cofres, sem contribuir em nada para a
limitação do tráfego, que se impunha: Desde que pagasse entrava; como todos
pagavam, todos entravam.
O que, além de processos em tribunal, por denúncia dessa situação (em que
andei pessoalmente envolvido, tendo o então Director do PNPG "ficado
bastante mal na fotografia"), levou a que, em 1992, houvesse uma forte
contestação das autarquias e populações locais, como foi amplamente
divulgado, inclusive pela TV. Tendo acabado por ficar decidido que as
portagens se deviam manter, para um efectivo controlo e limitação do tráfego
na Mata da Albergaria, mas sem qualquer pagamento. O que, quanto conheço,
tem funcionado bem, sem queixas das populações locais e/ou visitantes.
Pelo que a ideia de o PNPG vir agora tentar reintroduzir os pagamentos nas
portagens só se compreende por carências financeiras. Por isso, para nos
trazer mais e pior do mesmo, depois da triste experiência que já tivemos,
não, obrigado!
E note-se que eu próprio até tenho alguma responsabilidade numa outra
portagem com pagamento, ali ao lado, para acesso à propriedade privada de
Vilarinho da Furna
(http://afurna.no.sapo.pt/VISITE%20VILARINHO%20DA%20FURNA.pdf). Mas que,
apesar de alguma contestação inicial, por parte de alguns visitantes, até
tem funcionado bem, com efectivo controlo e limitação do tráfego: até um
Vereador da Câmara Municipal de Terras de Bouro já foi proibido de entrar
com o seu carro, porque o espaço estava saturado de viaturas.
Em conclusão: Portagens na Mata da Albergaria sim; portagens pagas não.
Manuel Antunes

----- Original Message -----
From: <mba@uevora.pt>
To: <ambio@uevora.pt>
Sent: Monday, February 19, 2007 2:54 PM
Subject: Re: [ambio] Portagens no PNPG

Há anos que defendo a existência de portagens nas áreas protegidas sempre
e quando tal seja possível. Portanto, esta iniciativa está de parabéns.
Para que essas portagens sejam efectivas a verba conseguida deve ser
re-investida em acções de gestão dos valores do parque. Essa é uma
reivindicação importante que deveria constar do caderno de reivindicações
das pessoas que se agitam em torno dessa medida.
No entanto não parece ser isto que motiva as hostes locais.
Miguel Araújo



publicado por MA às 13:24
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Segunda-feira, 19 de Fevereiro de 2007
Portagens no PNPG
Segundo notícias recentes, "o Parque Nacional da Peneda-Gerês (PNPG) vai passar a cobrar 1,50 euros aos turistas que, no período de Verão, pretendam circular de automóvel na Mata da Albergaria, num percurso de cerca de dez quilómetros, pela EN 308-1. A medida já está a ser contestada pelas populações que temem os efeitos na afluência de turistas. A estrada em causa liga Portela do Homem (freguesia de Campo do Gerês) - junto à fronteira com a Galiza -, a Leonte, na localidade Vilar da Veiga, concelho de Terras de Bouro, cruzando a Mata da Albergaria, que se constitui como uma floresta bastante densa e considerada representativa da floresta primitiva. Actualmente, a circulação é já bastante condicionada, sendo mesmo proibida a paragem dos automóveis. (...) Os autarcas do PNPG ameaçam agora "endurecer a luta" caso a direcção daquela área protegida mantenha algumas das actuais restrições no novo plano de ordenamento, cujo processo de revisão deverá ficar concluído até final do ano. A possibilidade de poder instalar aproveitamentos eólicos continua a ser o grande objectivo das 22 juntas de freguesia abrangidas pelo parque, devido às grandes receitas que poderão gerar". http://dn.sapo.pt/2007/02/13/sociedade/geres_portagens_a_partir_junho.html
Espero que os responsáveis pelo PNPG tenham o bom senso de não "comprar mais uma guerra", tão desnecessária quanto inútil. De facto, quando, nos idos de 1990, pairou sobre o PNPG a ameaça da desclassificação, a AFURNA - Associação dos Antigos Habitantes de Vilarinho da Furna (http://afurna.no.sapo.pt/), foi a primeira entidade a propor, em comunicado, o estabelecimento de portagens pagas, na Mata da Albergaria, com o objectivo, além do mais, de diminuir o tráfego automóvel, durante os meses de Verão. Mas aconteceu que o respectivo pagamento apenas serviu para encher os cofres do PNPG, sem que dele fossem sequer prestadas contas às autarquias envolvidas e aos proprietários dos terrenos em causa, AFURNA incluída. O que levou a que, em 1992, devido à forte contestação pública, fosse decidido que as portagens se deviam manter, para um efectivo controlo, mas sem qualquer pagamento.            

 



publicado por MA às 00:01
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Terça-feira, 13 de Fevereiro de 2007
Vilarinho da Furna - Textos
"Vilarinho da Furna"
Alfredo Mendes, in Rio Lindo, ed. Águas do Cávado
 
Era uma vez uma terra na paz profunda do vale. Ossadas de Vilarinho da Furna, albergando até ao tutano eco de almas, de viveres, gritos de saberes suspensos num tempo indizível. Tempo aferido por relógios de sol petrificados, povo de lembranças, quantas delas crestadas nos rostos de pedra que podeis enxergar quando as minhas águas rareiam. E então havereis de lhes chamar lápides falantes, lápides que calam fundo, ou não fossem pedra-lar dos serões aconchegados ao lume, «fias tu?, fio eu, minha mãe». Com o fumo evolam-se histórias de lendas, dos ursos pardos rondarem por ali; e sob a abóbada das varas dos enchidos o era uma vez continua no sonho e no sono das princesas encantadas, tranças de ouro bordejando-lhes o rosto. E assim o povo dormia amornado, levando na veia do coração o corpo da terra nua e crua.
Ao luar, sombras amortalhando um santuário de afectos para sempre sepultados. E supõem não haver uma alma penada pelos pecados do mundo nas margens sentada, queda e calada, respirando pulsares cobertos pelo espírito das águas mansas?
Essa a penitência na aldeia comunitária que já foi, na paz monacal que parecia ser. Lembranças de bordas de pão cozido pelas madrugadas do silêncio, seis rasas de milho para um quarto de rasa de centeio, o alimento diário. Se caía um naco ao chão? Beijavam-no com tal carinho que pareciam louvar o Menino Jesus na noite de Natal. Pão, fermento de vida. Vinho, fruto da videira e do trabalho do homem.
No regaço do vale expulsavam o vizinho por ter alugado casa a gente de fora. A respeitar, o... «entre quem é!» No regaço do vale cortaram cordões umbilicais, oraram pelos seus mortos, «dai-lhe, Senhor, eterno descanso» e pelo velório uma tecla de toucinho espreguiçada sobre o pão amaciado a goladas de bagaço. Rezavam-se trinta Padre-Nossos mais trinta Avé-Marias; depois, a estafa de levar o esquife ao ponto mais alto da terra, por acaso o mais perto do céu e a quem acompanhasse o morto até à última morada, um copo de vinho, uma ração de pão serventia da mantença, ao outro dia, comilança melhorada em santa obediência ao antigo culto dos mortos. Pão e vinho andam a caminho neste remoto ritual ao ar livre. Ai as manducagens nos enterros, uma mulher à frente do defunto a oferecer a Deus (padre), meia rasa de milho e meio quilo de toucinho.
O requiem de uma terra ainda sem sorte tocada, isso mesmo confiavam pastores e moleiros movendo-se nas suas terras de aluvião. No sopé da serra Amarela pedras de uma civilização em decrepitude, ao fundo, pinheiros bravos, carvalhos, azevinho com bolinhas vermelhas e no meio de tudo o Éden tinha a seu regalo gado suino, lanígero, bovino. Ah, lembra a alma a penar pelo renascer da Fénix, um tal Verdego, seja a Maria Joaquina, as casas eram de granito e soalhadas de carvalho, nos baixos currais ou lojas térreas, tanques para o vinho de ramada e de enforcado, onde ferviam mostos purpurinos e eu, rio mortalha, a pensar nos resquícios da velha têmpera daquelas mulheres, daqueles homens.
Na rudeza das pedras, velhos com olhos rasos de água por tanto amarem a terra dos seus amores continuam ir ali pôr flores no cemitério; continuam a ver casas colmeadas, a autoridade instituída a um zelador, responsável pela administração daquele povo agro-pastoril. Uma democracia ancestral, as cinco chagas da vara do zelador, ceptro sublime de um comunitarismo a resistir na serra distante do mundo. Povo ribeirinho a tecer, a sachar a hortaliça, a fazer o fumeiro, festa da abastança, a do sangue cozido. Povo carpinteiro, ferreiro, sapateiro, povo a erguer muros, a compor carros de bois. Sai a vezeira, cada um dos donos responsável por vigiar o gado de todos, ai a vezeira da rês, «Botai-la rês». À noite retornam as cabras mais o seu balido, um chocalhar ao clamor dos pastores, «Estrema! Estrema!».
Ouçam agora o toque do corno de cabra para a reunião no Chão do Forno, às quintas-feiras. Ouçam os brados de antanho, «Botai-la rês», outra vez, «Botai-la rês» e tende cuidado, muito cuidado com o acoitar dos lobos dominando cabeços e matagais. Nas batidas encaminhavam-nos para os fojos, toscamente vos descrevo, duas grandes paredes de pedra em ângulo agudo. Se mesmo assim as feras tinham fuga, aos zagalotes, meu povo!, e ei-los correndo feridos e exangues, através da abertura apertada até caírem no fosso coberto de folhas e de ramos. Adeus, adeus ao uivar à lua, e balbúrdia guerreira nos chavascais--alegria dos donos de ovelhas e cabras, mal sabendo que os animais também são bodes expiatórios com costas muito, muito largas. Mas disso pouca fé faziam caçadores e batedores, a hora era de comer e de beber, de entrar na terra alombando as feras mortas, dentes arreganhados, olhos vítreos de vida finda.
Facetas muitas, pelos barrancos contrabando até terras de Espanha entre matas de medronheiros, homens conhecedores de todas as pedras, de todas as pegadas, vigília aos ventos do céu atlântico, da boa-aventurança, da grande audácia. E emigraram além-Pirinéus, miragem de um pão menos rançoso. Para aí caminhava um povo ensimesmado pelos labores e pelas serras e pelos vales e pelo estio e pelas geadas. Não um povo de homiziados, mas um que sabia manejar o arado quadrangular, as gadanhas, as croças, a masseira, o forno. Povo que sabia mimar os currais com fenos e carvalhos, deixando-se cativar por um verde belíssimo aos primeiros raios de sol após as chuvas inverniças. Porque invernadas agrestes, ardem toros de carvalho, raízes de urze aquecendo a cozinha. Nos escanos, velhas embiocadas tremelicam ensalmos. Para os recos refocilando nas lojas, o caldeirão de cobre, a lavagem fumegante, negros potes de ferro fundido com caldo pronto a sorver num rugir animalesco. A família Trigo, a família Fecha vão à deita, o sono já espreita; camas com o desenho do sino-saimão, tal acontecia no jugo dos bois e... pelo sinal da Santa Cruz!
A cruz com barbichas de musgos nos espigueiros ou canastros do século XVIII, ripes de madeira assentes em pilares dotados de discos de pedra na parte superior, guardiões de espigas de milho e de seculares cravelhos. A cruz, ainda a cruz nos moinhos e a mó girando, girando... a farinha, sacos dela, o rodízio, a adelha, a seteira, o farfalhar da água... E a mula do moleiro? Sabe o caminho de cor e salteado quando o dono apanha uma destas carraspanas que precisa de ser levado à paz do doce lar e às azedas palavras da mulher.
Toda esta vivência abençoava a padroeira da terra, Nossa Senhora da Conceição, a oito de Dezembro. De ano para ano a incumbência de um vizinho organizar a efeméride; o cavalheiro, investido de anfitrião, sacrificava mais de dez cabras a que juntava dezenas de quilos de arroz e de pão. E viva a banda, sonante instrumento do sangue da festa-desforra. Comeres melhorados, já se sabe, nem só de boroa de milho, caldo de vagens, farinhatos no inverno, chouriços e sarrabulhos se lambuzar o povo. Nem só sopas de leite ou perdiz ou caçapo crivados de chumbo adentavam os filhos da terra. Nem só trutas e escalos no verão ziguezagueando pelo rio Homem euforizavam as suas vontades.
Ao cristianismo caldeavam rituais pagãos. Querem saber de um? Pela meia-noite de Natal saíam à rua com um cavalo aceso, tirado da lareira, ficando o povo a saber de que lado estava o vento. Do Norte? Ano frio. Do Sul? Ano quente. Do Nascente? Chuva quente. Do Poente? Chuva fria.
Contra toda a espécie de intempéries e maleitas se apelava aos antibióticos dos médicos e às benzedeiras mais os seus defumadouros, prática que nenhuma comunicação moderna logrará esfumar. Então havia que arrenegar a bruxaria, ou o sabbat de sinistras memórias. Medos velhos e revelhos amantizados com o sobrenatural, olhem ali o senhor padre intercedendo por S. Sebastião, advogado contra a fome, a peste e a guerra e o santo dando voltas à igreja em caso de calamidade nas terras. E os infortúnios aplacavam, pois tinham de aplacar, fosse à teima de comer à tripa-forra, ou para tal funçanata homem de fortes costados não botasse sentido. O senhor padre, olhem ainda para ele, afofando as botifarras nas encostas rochosas a declamar esconjuros ao Pai do Céu. Procissões, alminhas do Purgatório e... almas apaixonadas. Surgiam os casamentos, mal de amores desabrochando a todo o momento; noivas virgens?, outra a prática, laços, mais laços e lacinhos e a terra cogumelada de guarda-chuvas abertos.
                        Lá vem-no senhor doutor,
                        Com a lanceta na mão
                        Bem te dizia Laurinda
                        Que era na veia do coração.
 Nesses dias povo aperaltado na vestimenta, posto a lã, o linho, as croças de palha terem outro paradeiro no canto escuro da casa. Para as arcas o ataviar austero da solidão dos dias em que os homens usavam burel e aventais das costas transformando-os em figuras espectrais de arrepiar pelas encruzilhadas, também disso deu nota o investigador Jorge Dias.
A ganapada, essa, perseguia os garranos, não os da noite de Natal cobertos de luzes, qual?!, garranos selvagens em larga desfilada atravessando livremente a fronteira galega à velocidade do vento suão. E viam a beleza da vezeira da vaca que começava no dia um de Maio, terminando no dia de Todos-os-Santos.
Era uma vez uma terra na paz profunda do vale.
Era uma vez a família Geira, sessenta casas amontoadas, cabanas de pastores (furnas) para a pernoita durante os meses das vezeiras.
Era 1972 e aprisionaram o meu braço direito, Homem, nome de rio. Altura e largueza de albufeira. Precisão de quilovátio. Ficaram os esqueletos das casas e lodo, muito lodo. Ficaram os esqueletos das árvores ocas, dedos apontados ao céu e às consciências humanas.
Era uma vez uma ponte romana rodeada de flores que na lama parecem firmamento de estrelas velando aos mortos do cemitério, restos protegidos por um santo incógnito
Terra submersa, amores enterrados em lençóis de água. A velha alma a penar, lembram-se?, nas margens do Homem falando com os seus fantasmas e...
Era uma vez uma rapariga tão linda, tão linda que de Vilarinho da Furna teve de fugir sem a força impulsionadora de um poema:
                        Manuel é quem me ama,
                        Manuel é quem m´adora,
                        Manuel é quem me tira
                        Da minha casa p´ra fora.
 Permaneceram fantasmagóricas sobras de paredes, espigueiros, ruas, salas e quartos à vista quando as minhas águas descem, praticamente escoam e toleram revelar ao mundo a riqueza de um comunitarismo julgado pobre e eterno. Casas de ouro velho por acção e graça do sol na altura das vacas tornarem às lojas e o velho trazer para casa o burro pela arreata.

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publicado por MA às 20:39
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Domingo, 4 de Fevereiro de 2007
Contra Corrente - Os Mitos Climáticos
De Rui G. Moura, Engenheiro. Mestrado em Climatologia.
"O Pânico Climático, A política do medo
Quando se fala do hipotético aquecimento global pretende-se seguramente
meter medo. Até seria desejável que a Terra aquecesse. Com efeito, isso nos
traria imensas economias tanto de energia para climatização, como do
petróleo bruto e dos seus derivados. Por outro lado, seriam ganhas largas
extensões de terra cultivável em direcção às regiões subpolares. Foi o caso
entre os anos 1930 e 1960 (período do Óptimo Climático Contemporâneo).
Nessa altura, as explorações agrícolas do norte do Canadá e da Escandinávia
deslocaram-se mais para Norte. Nos anos 1970, com o regresso do frio,
voltaram a retroceder para Sul. O mesmo aconteceu na África subsariana onde
os criadores de gado se deslocaram primeiro para Norte e depois regressaram
ao Sul quando a seca estalou nos anos 1970. Durante o período quente, as
chuvas tropicais eram mais abundantes. Isso quer dizer, paradoxalmente, que
se o aquecimento fosse efectivo, a seca acabaria no Sahel! Mas
infelizmente, não é esse o caso".


publicado por MA às 03:02
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Sábado, 3 de Fevereiro de 2007
Contra Corrente - Aquecimento Global
02 de fevereiro, 2007 - 08h43 GMT (06h43 Brasília)
Daniel Gallas
De São Paulo
'Ambientalista cético': Combater aquecimento não compensa
Em 2001, quando o painel da ONU que estuda mudanças climáticas (IPCC, na sigla em inglês) lançou seu terceiro relatório, um livro publicado por um cientista dinamarquês causou polêmica ao dizer que a questão do aquecimento global estava sendo exagerada.
Em O ambientalista cético, Bjorn Lomborg argumenta que iniciativas como o Protocolo de Kyoto e esforços de redução das emissões de carbono podem até ser eficientes para combater o aquecimento global, mas que eles trariam poucos benefícios a alto custo.
Segundo ele, outras prioridades – como combate à aids e redução da pobreza – poderiam ter um efeito mais desejado no bem-estar geral e até no meio ambiente.
Seis anos depois, depois de muita polêmica e até um processo na Dinamarca, o movimento dos “ambientalistas céticos” cresceu, recebendo adesões de vencedores do prêmios Nobel.
Em 2004, Lomborg formou o Consenso de Copenhagen – grupo que propõe priorizar outras questões econômicas acima do combate ao meio ambiente.
Neste ano, enquanto escreve a continuação de O ambientalista cético, Lomborg pretende trazer suas idéias para a América Latina, para formar a Consulta de São José, na Costa Rica, uma versão regionalizada do Consenso de Copenhagen.
Lomborg conversou por telefone com a BBC Brasil sobre aquecimento global.
BBC Brasil - Em seu livro, publicado há alguns anos, você diz que o problema do aquecimento global estava sendo exagerado no debate global. Isso ainda é verdade hoje?
Lomborg - Mudança climática não é o único problema no mundo. O que podemos fazer contra mudanças climáticas trará benefícios relativamente baixos a custos relativamente altos.
Estou perguntando: essa é a forma correta de ajudar o mundo? Minha resposta é, em grande medida, não. Mudança climática é algo que precisamos consertar, mas é um problema de longo prazo, e certamente não é o problema mais importante do mundo.
BBC Brasil - Em 2004, o Consenso de Copenhagen classificou os problemas econômicos do mundo em diferentes categorias. Mudanças globais foram classificadas como prioridade “muito baixa”. Isso ainda é verdade?
Lomborg - Sim. O principal a ser dito sobre isso é que o painel da ONU sobre mudanças climáticas vai repetir as avaliações passadas, apenas com mais certezas.
O que nós (do Consenso de Copenhagen) estamos dizendo é que mesmo que todos, incluindo os Estados Unidos, assinassem o Protocolo de Kyoto, isso mudaria virtualmente nada daqui a cem anos. Isso adiaria o aquecimento global em cerca de cinco anos.
E o custo disso seria de US$ 180 bilhão por ano. Isso não é muito bom. É um preço muito alto. É isso que o Consenso tem tentado mostrar: que com todo esse dinheiro é possível fazer o bem em outras partes do mundo.
BBC Brasil - Nos Estados Unidos, o consenso geral tem sido oposto. As preocupações ambientais estão se espalhando por diversas correntes. O democrata Al Gore lançou um filme e um livro sobre preocupações com o meio ambiente e até mesmo o presidente americano citou as mudanças climáticas em seu discurso no Congresso. Eles estão todos errados?
Lomborg - O problema é ter muitas pessoas se preocupando demais apenas com um assunto. Se você se preocupa demais com um assunto, você deixa de se ocupar com outros problemas.
Estou feliz que muitas pessoas nos Estados Unidos se preocupam tanto com o resto do mundo. Só fico um pouco triste de ver que eles se preocupam com o mundo de uma forma tão particular que estão determinados a fazer pouco bem a um custo muito alto. Eles poderiam fazer muito mais, com baixos custos.
BBC Brasil - Qual é sua opinião sobre o filme e o livro de Al Gore, 'Uma verdade inconveniente'?
Lomborg - É muito alarmista. Pega apenas as piores previsões possíveis e conta histórias de aterrorizar. Só leva as pessoas a imaginarem que esse é um problema muito mais grave do que ele realmente é.
BBC Brasil - Na sua avaliação, então, as Nações Unidas deveriam abandonar o esforço de coordenar medidas globais de combate às mudanças climáticas?
Lomborg - Não. É bom que tenhamos o IPCC. Pesquisa não custa muito dinheiro. Mas deveríamos estar mais preocupados em fazer com que as Metas do Milênio sejam concretizadas, em vez de se ocupar com emissões de carbono. Isso trará muito mais benefícios com custo muito menor.
BBC Brasil - As prioridades de hoje ainda são o combate ao HIV e a liberalização do comércio?
Lomborg - Pretendemos continuar discutindo essas questões e revisar o Consenso de Copenhagen a cada quatro anos. Vamos refazer o Consenso no ano que vem, em 2008, onde atualizaremos todas essas prioridades. Vamos discutir: há novas informações? Há alterações, tanto em mudanças climáticas.
Também haverá uma reunião do grupo em São José (Costa Rica), chamado Consulta de São José, em conjunto com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) em outubro deste ano. Teremos especialistas da América Latina discutindo quais são os principais problemas na região. Esses especialistas vão analisar: “o que podemos fazer na América Latina com recursos limitados?”.
 


publicado por MA às 10:58
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Quinta-feira, 1 de Fevereiro de 2007
A Gente de VILARINHO DA FURNA vista por MIGUEL TORGA

Requiem

Viam a luz nas palhas de um curral,
Criavam-se na serra a guardar gado.
À rabiça do arado,
A perseguir a sombra nas lavras,
aprendiam a ler
O alfabeto do suor honrado.
Até que se cansavam
De tudo o que sabiam,
E, gratos, recebiam
Sete palmos de paz num cemitério
E visitas e flores no dia de finados.
Mas, de repente, um muro de cimento
Interrompeu o canto
De um rio que corria
Nos ouvidos de todos.
E um Letes de silêncio represado
Cobre de esquecimento
Esse mundo sagrado
Onde a vida era um rito demorado
E a morte um segundo nascimento.

Miguel Torga

Barragem de Vilarinho da Furna
18 de Julho de 1976

http://www.vidaslusofonas.pt/miguel_torga.htm

MA



publicado por MA às 03:14
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